De todas as vantagens de parar de fumar, a mais importante é, sem dúvida, o fato de eu agora poder ser um exemplo pra minha filha. "Ensina pelo exemplo", meu pai sempre dizia.
Ensina pelo exemplo.
E vamos falar francamente: se tem tanto jovem por aí que começou a fumar por causa de um
cowboy desconhecido e rústico (ui), por causa de uma galera sarada fazendo
windsurf, imagina o poder da influência de um pai fumante. Pensa numa responsabilidade...
(ninguém mais faz wind hoje em dia. Saiu de moda. Se ainda existissem comerciais do Hollywood, o pessoal faria stand up. Caído. Wind era muito mais radical)
Agora eu não preciso mais me esconder, não preciso mais tentar explicar para ela por que a mamãe fuma se a mamãe diz que o cigarro é coisa feia, que faz tanto mal. A mamãe, afinal de contas, é burra? Faltou a essa aula? E vou te contar: a bichinha tá orgulhosa. Por mais nova que seja, ela sabe. Ela sente que as coisas estão diferentes e eu fico aqui torcendo para ter parado de fumar a tempo de não prejudicá-la, de não influenciá-la. Só o tempo dirá se foi tarde demais, e eu terei de conviver com isso.
Ensina pelo exemplo. O que nos leva à última quinta-feira, penúltimo dia de vacinação contra gripe.
Tô lá, do alto da minha sabedoria materna, explicando para uma argumentadora de cinco anos que tem que tomar, mandando a real, sem dourar a pílula. Tem que se proteger, você já não é mais um bebê, vacina é coisa séria, um picadinha (ah, má vá...),
yadda,
yadda,
yadda...
Mas ela é minha filha, né? Na hora do cadastro, bem na frente da funcionária, ela solta um "mas mãe, se é tão importante, por que você não se vacina?" Ora, ora, minha pequena
padawan, well played. "Mas aqui não tem para adulto,
darling, só crianças e velhinhos, veja só", eu respondi, apontando aliviada para a galera da fila.
"Mas se a senhora quiser", interrompeu a moça do cadastro, "pode se vacinar sim. E agora, junto com ela. Todo ano sobra mesmo, vai lá. Dá o exemplo."
Na boa, é um complô. A moça do posto tá mancomunada com a minha filha!
Ameacei, num balbucio, um "cala-a-boca-minha-senhora-tá-maluca-já-não-basta-parir-tem-que-se-vacinar-junto-também?" quando ouvi minha filha falando em tom de deboche (ela tem só 5 anos, mas juro que dava pra sentir a alegria da vingança em sua voz): "mãe, é só uma picadiiiiinhaaaa, vai?"
You´re going down!
Sorri ao me ver presa na minha própria armadilha de ironia. Era a a hora da verdade.
Ensina pelo exemplo.
Tomei a vacina. E saímos do posto juntas e triunfantes, ambas apertando nossos algodões da vitória. "A MINHA MÃE TOMOU VACINA COMIGO", ela contou para o jornaleiro, o rapaz da farmácia e o gari.
É. Talvez eu não tenha parado de fumar tarde demais.